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A BEBIDA

O sujeito chegou, olhou a mocinha atrás do balcão e lhe perguntou:

- Você tem mictório aí?

A mocinha, com pouca experiência, disse que sim, mas na verdade não conhecia nenhuma bebida com aquele nome.

Olhou para todos os litros de bebida e não achava a mictório.

Pediu licença ao sujeito que mal se punha de pé, tamanha a embriaguês e foi procurar no depósito.

Retirava as garrafas e nada. Nenhuma era nem parecida com aquela que o freguês lhe pedira.

Voltou ao balcão, pediu desculpas ao cidadão e lhe pediu que esperasse um pouquinho.

O sujeito lhe dirigia gracinhas e ela olhava-o desconcertada. Tinha que aturar tudo aquilo!

O pai sempre lhe dissera:

- Freguês tem sempre razão por mais que esteja errado. Era daquele boteco que saía o pão de todos, e ai de quem fosse feita uma reclamação.

Desesperada não via a hora do pai ou um dos irmãos chegar. Detestava aturar bêbado e prometia a si mesma que teria uma vida melhor.

-Queridinha, você está tão sozinha... Vem sentar aqui pertinho de mim.

A menina sentia ao longe o bafo de onça que ele soltava pela boca.

O que fazer? Não chegava ninguém! A rua estava deserta e ela ali com um sujeito esquisito, bêbado que lhe faltava com o respeito, se debruçando sobre o balcão, para alcançá-la.

-Gracinha, vem sentar no meu colo, vou te fazer cada carinho que você nem imagina! Ninguém vai ver. A rua está deserta, estamos sozinhos!

Era isso que a assustava! Sozinha com um bêbado e ninguém para ajudá-la! Por que seu pai não chegava para atendê-lo?

Tremia e rezava as orações que a mãe lhe ensinara.

Cada vez mais audacioso em sua investida, deixava-a petrificada. O medo fazia com que ela não se movesse.

Só Jesus para tirá-la daquela situação! Se não chegasse ninguém, estaria perdida. O sujeito não tinha limites. Forçava o portãozinho, entrada para o balcão, e a qualquer momento conseguiria arrombá-lo.

Quase conseguindo seus objetivos, alcançá-la, a menina subia no balcão para fugir, quando seu pai adentra pela porta e a encontra em total desespero.

- O que está acontecendo, menina? O que faz em cima do balcão? Toma jeito, sua tonta!

O sujeito, que não era bobo, virou santo de repente!

- Estou tentando ajudá-la! Há tanta louça suja!

“O freguês tá sempre certo”. A frase repetida constantemente pelo pai dava razão ao abusado freguês.

Gaguejando, responde ao pai:

- Ele quer mictório.

O pai encaminha o sujeito e aí então, a menina cai na real.

Pensava que mictório se tratava de uma bebida.

Margot Carvalho