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A profissão

Estirou-se no sofá. Esticou os pés, jogando os sapatos embaixo da mesinha da sala.

Sua cabeça rodava; uma terrível dor a tomava. Ufa, que dia!

Era muito difícil levar sua carreira avante! Estava enlouquecendo a cada dia.

Cada vez mais rebeldes, os alunos a levavam ao desespero.

Suas filhas, proibidas de seguir a mesma carreira que ela. Nem ousassem pensar!

Aturar desaforo, ganhar mal, ser desrespeitada, já chegava ela!

Sem contar que saía correndo de um lugar para outro, para melhorar a renda mensal, levando trabalho para os fins de semana, uma tortura.

E a cada dia uma nova experiência. E que experiência! Nem ao banheiro podia ir!

Caso se ausentasse da sala, quase se matavam. As portas sem maçanetas, os corredores sujos e pichados, palavrões que fingia ignorar eram ditos, sonoros, como forma natural de vocabulário. Um horror!

Estava à beira de um colapso nervoso...

Em seus sonhos, pesadelos. Acordava decepcionada com a realidade, sem nenhum entusiasmo.

No meio daquilo tudo, alguns até se mostravam interessados, e para eles ela se desdobrava, mesmo porque se sentia frustrada dentro da profissão que amava.

Jamais concordaria ou acharia normal que o aluno tivesse o direito de fazer na escola uma algazarra desrespeitosa.

Como agirão no futuro?

Na hora da merenda, bananas e laranjas voavam pelo ar, num furor selvagem. Queria entendimento para os fatos e eles iam se agravando dia a dia.

Punição? Proibida! Assim, faziam o que queriam.

Escola servia para tudo, menos para estudar!

Só o professor é que trabalha desse jeito! E se ainda fosse levado a sério!

Foi até a cozinha, abriu as panelas e nada lhe apetecia. Melhor dormir mais cedo, descansar o corpo para uma nova batalha.

Isso mesmo, nova batalha! Como era difícil aturá-los!

Na avaliação, uma decepção! Provas entregues em branco, outras com piadinhas. O erro seria dela?

Tomou o café apressadamente, calçou os sapatos, saiu para pegar o ônibus.

Naquele dia, não sabia por que, achava que as pessoas detinham um olhar meio esquisito sobre ela.
O ônibus atrasou, ela foi direto para a sala.

Começou a ouvir risinhos e cochichos que a irritavam.

Decidira que naquele dia seria diferente. Sem a calma de sempre, começou a falar alto, chegando mesmo a gritar.

Não queria ninguém em pé ou no banheiro e especialmente os risinhos debochados.

Os alunos pareciam ignorar seus apelos e os risos tornavam-se mais intensos.

Além da irritação, algo que ela não sabia explicar pairava no ar.

A dor de cabeça aumentava e ainda teria quase um dia todo pela frente. Precisava se controlar. Sabia ser muito difícil, mas era necessário.

Aluno percebe quando tira a paciência do professor, e a dela tinha se esvaído pelo ralo.

Virava as costas para a turma e os cochichos, risos aumentavam ainda mais.

Descontrolada como nunca, deu um grito que ecoou pela escola.

Com um soco na mesa, conseguiu intimidar os alunos. Olhavam para ela sem compreender. Nunca agira assim com eles.

Sempre mais ou menos paciente. Jamais, porém, agira como agora. Engolia cada sapo!

Estavam exagerando na falta de respeito!

A direção correu para ver o que acontecia.

Assustados, levaram-na para a secretaria.

A professora Lúcia, fora de si, chorava sem parar!

Não podia agir daquela forma de jeito algum, retrucava a diretora. Se chegasse aos ouvidos de seus superiores, seria punida!

Lúcia, aos soluços, incrédula, perguntava:

–Eu? Punida por quê? Eles, sim, teriam que ser punidos!

Nos pés? Um sapato branco e outro preto.

O vestido? Pelo avesso.

Embaixo da mesinha de sua casa, havia um sapato branco e outro preto.

O vestido? Pegou-o no armário, pendurado pelo avesso. A etiqueta “enorme”, vermelha, estampada na gola, na parte das costas do vestido.

Margot Carvalho