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Amarelo-ovo

Chegou a casa, eufórica.

Como entraria na igreja? Não pudera dizer não à sobrinha. Seria madrinha de seu casamento, juntamente com seu elegante marido.

Todos os dias, colocava um livro sobre a cabeça e treinava. Sapatos altos e lá ia ela do corredor à sala; da sala à cozinha.

As atenções recairiam sobre ela e não faria feio de jeito nenhum!

Comprara um sapato bem “cheguei”, muito bonito. Só faltava decidir o vestido.

As bijuterias pedira emprestado à sobrinha, já que ela quase não usava apetrechos.

A cor do vestido seria... verde, azul ou talvez amarelo, quem sabe?

A preocupação não a deixava dormir. Casamento muito chique! E ela, a madrinha!

Ia ao shopping, olhava, olhava, entretanto nada lhe agradava.

Aquilo de que gostava sempre tinha preço exorbitante.

Ganhava muito bem, mas ajudava os filhos na faculdade. Coçava a cabeça... O dia se aproximava.

Mulher é fogo! O homem vai à loja, aluga a roupa e tudo bem.

Teria que estar nos conformes, não iria fazer vergonha de jeito nenhum.

Deitada, olhava para seu sapato com admiração. Era tão bonito, tinha tanto brilho que ofuscava seus olhos.

Seu filho entrou no quarto e, repentinamente, fixou os olhos no objeto de desejo da mãe.

– O que foi, meu filho? Você está tão esquisito!

– Mãe, não vá me dizer que esse sapato é da senhora?

– Claro que é, meu filho. Não é lindo?

– Fala sério. É ridículo! A senhora não vai usá-lo, sabia?

– Por que não, filho?

– Porque é ridículo esse brilho todo. Ninguém vai olhar para a senhora, só para ele. Minha mãe não vai fazer vergonha, não! Vamos trocá-lo. Agora!

– Não posso. Comprei-o na cidade e nem sei onde está a nota para a troca.

– Então a senhora compra outro. Com esse é que a senhora não vai!

E lá foi ele com a mãe comprar outro sapato. A mãe ia retrucando: “Mas é tão bonito!”

Feita a compra, satisfeito, o rapaz trazia a mãe de volta.

– Você me fez gastar mais dinheiro, sem precisar!

– Minha mãe não paga mico! A senhora vai ser a mais elegante e bonita da festa. Agora vou escolher o seu vestido. Se a senhora não soube comprar o sapato, certamente não vai saber comprar o vestido.

Saíram de manhã bem cedinho. Andaram muito no shopping. O rapaz era exigente e fazia restrição a tudo de que a mãe gostava. “Esse não... esse também não...”

Depois de horas de cansaço, nada encontraram à altura. Teriam que ir a outro lugar. Já noite, voltaram para casa, cansados.

A tarefa do rapaz era exaustiva: encontrar um vestido decente para a mãe.

Barra Shopping seria o destino. Pagariam mais caro, mas certamente sua mãe ficaria linda naquele vestido chiquérrimo.

Olha daqui, dali, um vestido bonito ao alcance do bolso.

Ajeita no ombro, na cintura, na bainha. O vestido ficaria na loja para reparo.

–Agora sim, mãe, a senhora vai arrasar!

Chegou o dia do casamento. A casa em alvoroço. As roupas sobre a cama. Só faltava o vestido que o próprio filho pegaria no Shopping.

A mãe fora cedo para o salão, com hora marcada. Mesmo assim...

Deixou o embrulho sobre a cama e saiu.

A mãe chegou, pegou o embrulho, pediu para a empregada passar o vestido.

Tomou banho, olhou as unhas, o cabelo. Um arraso! Não teria ninguém mais elegante que ela!

Dirigiu-se ao quarto e levou um susto.

Um vestido amarelo-ovo, com muito brilho, estava estirado na cama.

Ouviu-se um baque. Todos correram. O rapaz sacudia a mãe sem parar. Olhava para o horroroso vestido e entendia tudo.

Margot Carvalho