Trajetória :: Livros :: Galerias :: Fotos :: Poemas :: Crônicas :: Pensamentos :: Links :: Contato

 

Sobrevivência


Fechava todas as torneiras da casa e, antes de dormir, o pequeno guardião conferia o chuveiro em que o pai esbanjava, sem qualquer preocupação, o precioso líquido, deixando pingos, preciosidades futuras da humanidade, escapar.

O pequeno defensor dos bens naturais vigiava o pai a todo momento. Na hora da escovação dos dentes, na hora do banho; enfim, incansavelmente, defendia em sua casa cada gota de água desperdiçada.

Batia na porta e pedia que o pai economizasse o líquido precioso. Mas qual nada, o pai não lhe dava ouvidos!

Não compreendia como um homem tão grandalhão não entendesse suas palavras.

Na verdade seu pai não tivera a mesma oportunidade de estudo que ele estava tendo.

Era o pequeno guardião da nova geração. Geração que vem com mais conscientização dos valores da subsistência humana.

– Qual nada! É uma grande mentira - dizia o pai. Quem há de imaginar que, com tanta água, um dia há de faltar? É água para todo lado! Isso é uma grande mentira, menino! Olha, filho, eu mando furar um monte de poços artesianos! Não se preocupe! Há muita água! Eu tenho dinheiro, não se preocupe!

– Pai, a água não é renovável, não desperdice!

– Essa sua professora está exagerando! Você está traumatizado! Acha que vai faltar água, comida, porque a comida depende da água. Eu tenho dinheiro e não vai faltar nada!

A ignorância é que “astravanca” o progresso! Um dito popular tão antigo!

A situação para o menino ia piorando. Queria a conscientização de todos e ninguém lhe dava bola. Sofria tanto por isso!

Arrastou os pais para perto do telão da sala, para que vissem um jornalista famoso, engajado em defender a todo custo o que a natureza nos oferece na medida certa, sem abuso de consumo.

Ouviam como se não estivessem dando importância.

Aquele homem, tão sensível ao problema, convenceria seus pais do grave problema que a humanidade vai enfrentar futuramente.

No final, a decepção. Com um tapinha nas costas o pai foi se afastando! Olhou a sua volta: a mãe voltara para terminar o jantar.

Era domingo. O pequeno defensor, convicto de suas responsabilidades, passou pela cozinha, olhou sua mãe com a torneira aberta, a água escorrendo livremente pelo ralo.

Seus olhos encheram-se de lágrimas!

Saiu cabisbaixo para o quintal.

Não acreditou no que seus olhos viam!

Seu pai lavava a calçada, calmamente, arrastando folhas com a poderosa mangueira que tinha nas mãos e mandava para os ralos muitos litros do líquido tão precioso.

O menino entrou em pânico e gritou uma frase muito famosa, criada numa dessas novelas, e que ecoou pelo bairro inteiro.

- CHEGA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

CHEGAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

CHEGAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Os pais ficaram realmente assustados! Era um grito de guerra, como o dos guerreiros em fúria!

Valeu! A garotada, unida a alguns adultos, alertas para o problema, estendeu a todos a conscientização dum fato que vai atingi-los, se os “GRANDÕES” não se conscientizarem do grande problema que toda a humanidade vai encontrar: o da subsistência do planeta, que nos oferece o que precisamos, mas sem abusar.

Criou-se a associação do CHEGAAAAAAAA!, que trabalha não só no projeto que atormenta o menino Raphael, de apenas sete anos, mas também na revitalização dos valores morais de tantos que agem segundo a fórmula:

“O que me interessa? Somente eu! Os outros que se danem.”

Ver novela às vezes dá certo!

Margot Carvalho