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Quem disse que o silêncio existe?

 

Mergulhamos de cabeça, vivenciando das mais diversas maneiras fatos que gostaríamos de apagar definitivamente. Só que isso é quase impossível, pois em nossa memória, em nossas lembranças, eles continuam vivos.

Se o silêncio existisse, certamente não nos questionaríamos tanto por horas indefinidas.

A conversação conosco é intensa. Nesses momentos, mergulhamos em nosso eu, deixando a fantasia tomar conta.

No silêncio, planejamos o impossível, o possível e o irreal. Ah! Como somos hipócritas! Queremos parecer da forma mais convencional possível. Não nos damos o direito de ser verdadeiros, externarmos emoções vulgares.

A fantasia que há em nós eclode naturalmente e é no silêncio que damos vazão ao redemoinho de sensações que se perdem por labirintos e nos deixam vagar por forças incontroláveis à nossa vontade.

E no silêncio digo tudo que sempre quis te dizer, ouço tudo que sempre quis ouvir de você, seus lábios deliram junto aos meus e no encanto do momento sou tua, você meu. Momentos inesquecíveis, momentos somente meus.

E no mesmo silêncio vejo você passar sem sequer me olhar e na mesma noite, entre lençóis macios e quentes, ouvir sua voz rouca a balbuciar palavras loucas a me amar.

E quem disse que o silêncio existe?

No silêncio, a nossa verdade, sem censura, sem restrição, somente a nossa razão, sacia a sede da esperança, iluminando os sentidos, essência viva, insana, luz da alma sem conflito.

Se o silêncio existisse verdadeiramente, desligaríamos, como numa tomada, todos os nossos sentidos.

Mas a tomada continua incessantemente ligada para que possamos ter liberdade de pensamento, porque é somente nessa hora que nosso direito é verdadeiramente respeitado.

A liberdade de pensamento, expressão íntima de nossos sentidos, desabrocha em nós num cálice borbulhante que emerge quase que de forma sagrada, não permitindo invasão.

Ressoam fortes as palavras num grito compulsivo, levando-nos a sensações que provavelmente nos envergonhariam diante duma sociedade hipócrita que censura aquele que se expressa de forma não convencional.

As emoções eclodem de forma violenta ou mansa, mostrando-nos que, no silêncio, nosso eu vulgar se desnuda sem preconceito, sem hipocrisia.

E quem disse que o silêncio existe?

Margot Carvalho