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Perseverança

 

O voo preciso, perfeito e sedutor enchia de admiração e inveja o pobre pássaro.

Queria a todo custo ser igual a ela, forte, esguia, deslumbrante. Não cansava de segui-la, só para vislumbrar sua stonteante beleza.

Com isso passava o tempo todo a admirá-la.

Sua vida não tinha sentido!

A família, ressentida, porque ele não se conformava em ser um simples pássaro, já o deixara de lado. Que ficasse a sonhar com o impossível: ser igual à águia.

Nada produzia! Seus filhotes, abandonados ainda pequenos, precisavam tanto dele, mas ele, com a ideia fixa, só pensava nele, ou seja, na águia.

O egocentrismo não o deixava ver mais nada. Por que nascera assim?

Deus fora tão perverso para com ele e tão generoso com ela!

E, com profunda tristeza, deixou de voar.

Ficava estatelado, sem forças, com muita inveja e admiração, vivia em prol da vida da outra.

Esqueceu-se de si, não tinha noção de que possuía sua própria vida.

Seu tempo todo era preenchido em tomar conta da vida alheia. Era tão bonito dentro da sua espécie e nem percebia.

As crianças o admiravam, queriam sua companhia. Ficava extremamente irritado quando o chamavam de pássaro bonitinho. Queria ser elegante, belo, sedutor, charmoso.

– Por que nada fazes, ficas aí parado, tomando conta da vida alheia? - perguntou-lhe a coruja. - A natureza é diferente, mas todos temos propósitos e tu, querendo ser diferente, enquanto o tempo precioso, perdido, não retorna. Ficarás velho, invejoso, doente e sem amigos! Tudo o que quiseres será possível! Até voar mais alto e veloz. É uma questão de decisão, treino e perseverança. Em vez de tomares conta da vida dos outros, por que não cuida da tua? Quais são teus objetivos? Viver rastejando pelos encantos da águia? Dentro de ti há a força da águia, podes ultrapassar seus limites, luta, persevera, e teu voo ainda será maior do que o dela. Quebrar limites? O impossível? Só aqueles que têm coragem, perseverança para que objetivos traçados sejam concretizados. O possível é possível a todos e você nem concretiza o possível que lhe é possível!

Irritado, o pássaro esbravejou contra a coruja. Que tomasse conta de sua própria vida e deixasse a dele em paz!
E todos os dias a coruja aparecia para que mudasse de ideia, mostrava o quanto podia ser útil, mudar seu destino, ser respeitado, enfim, ter seu lugar na sociedade, mesmo porque todos o olhavam com piedade e piedade é um sentimento que não devemos despertar.

O pássaro começou a se questionar. A coruja tinha razão. Sua vida não tinha sentido. O sofrimento que a inveja lhe causava o estava atormentando, deixando-o sem forças e coragem. A cada dia sentia-se mais deprimido. Nada fazia e o tempo passava. Não era mais um garotinho!

E num dia ensolarado seguiu com a coruja, deixando a águia para trás.

Dentro dele havia uma águia sem limites. Alcançaria seus objetivos, mesmo porque os anos passados em favor da águia só lhe trouxeram sofrimento, não o deixando viver.

Com novos propósitos, cheio de esperança, deixaria seu triste passado para trás.

A inveja, a não conformação em não se aceitar tal qual era, tornou-o amargo, sem capacidade para fazer coisa alguma.

Enfim, usaria a águia que vivia dentro dele, livre, com todas as possibilidades de colocar em prática seus sonhos.

Ninguém acreditava que o bonitinho pudesse tornar-se o todo-poderoso tão rapidamente.

Cometia façanhas inigualáveis, ultrapassava seus limites, alcançando o impossível, causando admiração naqueles que não mais acreditavam nele.

Tudo podemos, quando queremos.

Margot Carvalho