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O trem

 

Diploma na mão, estágio em multinacional, muitos elogios e rumo ao primeiro emprego, isto é, inscrição.

Vinte mil candidatos, quinhentas vagas.

Ia pensando: estou bem preparado, experiente, pronto. Com certeza, uma vaga é minha!

Falando corretamente o inglês e o espanhol, era, na certa, páreo duro para qualquer outro candidato.

Via-se dentro da empresa apresentando projetos que seriam aceitos pelos gringos, tamanha sua capacidade em incentivá-los.

Concorrente, somente aquele em iguais condições. Os outros, apenas candidatos inscritos, palavras de seus professores, com as quais concordava plenamente.

Esperava o trem, condução bem mais rápida para o longo percurso. A mãe lhe explicara direitinho.

Acordara cedo, tomara um café bem reforçado, perfume francês, para impressionar.

Comia somente a comidinha preparada pela mãe ou, de vez em quando, almoçava em restaurantes classe A, mas, mesmo assim, nada se comparava ao que ela fazia.

Primeiro emprego. Ia pensando como seria.

Hora de almoço, sirene tocando, encaminhando-se ao restaurante da empresa, comida feita de qualquer maneira, mesmo para os executivos, péssima.

Entusiasmado e distraído com seus pensamentos, nem sentiu as horas.

O trem esperado não chegava. De quinze em quinze minutos, passava um, mas nenhum com o destino pretendido.

Puxa vida! Já são catorze horas e o trem não chega!

Talvez, por ser segunda-feira, tenham faltado funcionários e...

Sobe as escadas, precisa ligar para a mãe, procura um orelhão. Meio desligado, esquecera o celular em casa.

Orelhão quebrado! Só faltava essa!

Caminha um quarteirão inteiro, dobra a esquina e avista um, bem escondido entre árvores.

Orelhão todo despencado. O que fazer?

Último dia de inscrição, primeira oportunidade de emprego...

Entra numa loja, pede ao gerente para telefonar, ele lhe diz não.

Desesperado, sai à procura. Último dia de inscrição!

Olha para todos os lados e, de repente, um orelhão.

Fila quilométrica, todos reclamando e o tempo passando.

Finalmente, liga para casa. Ninguém atende. Será que Ana não tinha ido trabalhar?

Tenta lembrar o número do celular da mãe, não consegue. Se não deixasse o celular em casa, nada disso estaria acontecendo.

E o pai, por onde andaria? Que falta de sorte!

Oportunidade de bom emprego estava difícil e ele perdendo, talvez, a melhor de sua vida.

Aprendera a lição: jamais deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Se assim não agisse, agora estaria em condições de disputar a vaga tão cobiçada!

Continuou pendurado ao orelhão, tinha quase certeza. O número do celular da mãe era: 989943... ou talvez 989945... ia tentando...

Todos gritavam ao mesmo tempo: “Fora! Chega!”

A confusão rolava sem parar!

A voz do outro lado parecia a da mãe, não dava para definir, tamanha a gritaria.

Relatou a ela que ficara horas esperando e que somente passara trem com destino a D. Pedro II, nenhum com destino à Central do Brasil.

A mãe, do outro lado da linha, enfurecida, gritava alto:

“Meu filho, não seja burro. D. Pedro II e Central do Brasil são a mesma coisa!”

Não dava mais tempo...

Margot Carvalho