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O sonho

 

Saltar do ônibus em movimento, andar de bicicleta numa roda só, pular de grandes alturas, rolar as escadas da casa e fingir acidente; para a mãe não reclamar, somente alguns arranhões e muita decepção, enfim, não sabia mais como proceder.

Nem tinha vontade de se alimentar, tamanha a sua frustração.

O tempo passando, ela crescendo e o sonho nada!

Era tão lindo, quando saía às ruas e encontrava alguém, todo enfaixado, de preferência numa cadeira de rodas.

Ficava deslumbrada, em êxtase! Todas as atenções se voltavam para eles! Que fascinação! Um gozo total!

Mirandolina e Godofredo se conheceram. Foi amor à primeira vista. Olho no olho e aquela agulhada no coração, sabe como é, né? Só alegria! Era Godô pra cá, Godô pra lá, tinha encontrado seu príncipe encantado.

Para ele podia contar seu secretíssimo segredo.

A paixão por Mirandolina foi avassaladora! Só queria fazê-la feliz, mas aquele desejo da amada, deveras, era por demais esquisito! Não podia compartilhar tamanha loucura.

Queria levá-la ao psicólogo, ela não aceitava de jeito nenhum. Sonho era sonho, ué! Como podia ele querer que ela não realizasse o dela?

Quando havia aglomeração de pessoas, esbaforida, abria caminho no meio da multidão para ver o acidentado e, quando via um braço e perna fraturados, se perguntava por que não ela?

Mirandolina foi-se se tornando triste. Só nos braços de seu amor, Godofredo, sentia-se confortada, seus beijos quentes a faziam esquecer sua frustração.

Imagina se alguém como sua mãe soubesse! Diria que ela era louca. Por que não tinha sonhos saudáveis como as outras pessoas? Por mais que tentasse tirar da cabeça a idéia fixa que a atormentava, não conseguia.

Godofredo não media esforços e a cobria de presentes caros. Quem sabe esquecesse o sonho?

Ficaram noivos, já com o casamento marcado.

Godofredo fora transferido para outra cidade, bem menor do que a cidade da noiva.

A casa comprada por ele tinha uma grande escada. Mirandolina adorava escadas. Quando tinha oportunidade, subia e descia por ela, sempre correndo, sem cuidado algum. Sabem por quê? O objetivo era o mesmo!

O casamento foi em grande estilo, tudo financiado pelo noivo, bem de vida.

Afinal, em quinze dias, os dois partiriam para a lua- de- mel, programada para New York.

– Já pensou, Godô, que maravilha nos dois em New York?! Eu nunca saí daqui. Estou tão feliz, Godô! Você é estudado, fala inglês, francês, não vai ter vergonha de mim?

– Amor, você é a mulher que eu amo, é perfeita, linda, não precisa saber inglês, francês, deixa isso comigo, só me faça feliz!

Mirandolina havia até esquecido seu velho sonho, só tinha olhos para seu amor, a nova vida que a esperava.

Tudo arrumado, a casa toda mobiliada, os presentes embalados e rumo à nova residência.

A cidade era pequena, mas muito acolhedora.

A vizinhança esperando os novos moradores, ansiosos por conhecê-los.

Godofredo era um belo homem, elegante, fino, alto funcionário de uma multinacional que lá se instalara.

Pobreza para Mirandolina? Nunca mais!

Estava deslumbrada desde que o conhecera. Agora, então, marido...

Uma vida bem diferente. Suas roupas, sapatos? Todos novos!

E, num ritual, o marido a toma nos braços, sobe as escadas. No último degrau, num requinte de gentileza, volta-se para saudar a vizinhança.

No movimento brusco, perde o equilíbrio, rolando a escada junto com a esposa.

Nas páginas dos jornais, no dia seguinte, a manchete:

“Recém–casados sofrem acidente grave. A noiva, mais prejudicada, ficará um bom tempo no hospital”.

Mirandolina, sem dois dentes, com a cabeça e os braços enfaixados, perna levantada, presa ao teto, sorria, numa satisfação não entendida aos olhos dos que a viam.


Margot Carvalho