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O segredo

Feliz da vida, D. Placídia não via a hora de mudar de vida, jogar os cacos velhos fora, colocar janelas, portas, piso, móveis, tudo novo.

Há um ano investira numa profissão que lhe daria muito dinheiro.

Com o dinheirinho dos doces caseiros, vendidos de porta em porta, faltava só um pouquinho para realizar seu sonho: ser protética.

Com muita disciplina, dava toda atenção possível ao professor, por sinal muito rigoroso. Lógico, queria formar profissionais de alto nível.

Etapa final: apresentar uma dentadura perfeita. Muito habilidosa, D. Placídia se esmerava na confecção. Enfim, a tarefa final do curso estava terminada, já tinha até algumas encomendas.

Para entrar no mercado de trabalho, só precisava do diploma de protética. Sua carreira ia deslanchar.

Olhava para o trabalho. Perfeito! Seu professor sentiria orgulho da aluna que se esmerava em tudo o que fazia.
Ao longo de um ano, estava exausta. Trabalhara muito para pagar o curso.

Forrou a máquina de lavar com um tecido alvíssimo. Lavou cuidadosamente seu trabalho, perfeito aos seus olhos, e o colocou para secar.

Ufa, nem acreditava!

Seu marido foi tratar de seus afazeres matinais, mesmo porque, no sábado, comemoraria o aniversário da esposa. Tinha-lhe tanto orgulho! Formada em protética, nem acreditava! Comentava com os amigos que já lhe asseguravam encomendas.

Ao terminar de fazer o almoço e servi-lo ao marido e filhos, D. Plácidia preparava-se para se apresentar no curso, fazer avaliação final, e, enfim, o diploma tão sonhado.

Quando foi pegar a dentadura, não acreditou no que viu. Ela estava em pedacinhos no chão. Desesperou-se a ponto do marido socorrê-la e lhe dar um calmante.

Não acreditava: seu sonho aos cacos pelo chão.

Dormiu profundamente por horas e horas.

Quando acordou, levou um susto! Sete frangos mortos, em cima da pia. Atordoada, não sabia o porquê dos pobrezinhos terem sido mortos.

O marido apontava para os criminosos aos gritos: “Foram eles os responsáveis, foram eles os...”

D. Placídia, por fim, olhava para os criminosos com fúria. Colocou um caldeirão com água no fogo e os depenava sem dó. Destruíram seus sonhos e isso ela não perdoava.

Sábado, dia de seu aniversário! Fez uma grande panelada de frango ao molho pardo e chamou toda a família, que se deliciou, enquanto D Placídia relatava, muito constrangida, o acontecido.

Dentava cada pedaço de frango com fúria, não os perdoava!

Numa dessas dentadas, quebrou um dente. Completada a tragédia dos sonhos, ainda lhe acontecera o imprevisto?!

Chorava sem parar, não tinha sorte mesmo!

Como colocar o dente quebrado? Não tinha dinheiro!

Os dias passando e ela sem poder sair de casa.

Seu marido havia guardado a dentadura quebrada e ela se debruço sobre o sonho perdido. Uma idéia lhe veio à cabeça, olhando um dos dentes que era muito parecido com o que perdera.

No consultório do dentista popular, aguardava sua vez e não é que ele encontrou a solução?

Sorridente, saiu do dentista com a boca completinha. Da dentadura quebrada o dentista aproveitou o dente parecido com o que ela tinha perdido.

– Vou lhe contar um segredo, querida: naquele dia em que os frangos puxaram a toalha onde estava a dentadura, eu esqueci e deixei o galinheiro aberto.

D. Placídia perdia a paciência, o sangue lhe subia ...

O marido se via ao longe numa correria sem fim.

Margot Carvalho