Trajetória :: Livros :: Galerias :: Fotos :: Poemas :: Crônicas :: Pensamentos :: Links :: Contato

 

O ingrês

Os livros espalhados pela mesa denotavam a noite anterior.

Viche! Que ideia da patroa! Depois de velha inventava de aprender ingrês!

Também já era demais! Queria abraçar o mundo com as mãos!

Já era professora, artista plástica e agora mais essa?

Olhou para a agenda. Tanta coisa para fazer...

Corre daqui, corre de lá, sem contar que o patrão vinha para almoçar, e era chato pra caramba! Arroz, feijão, frango com quiabo, salada de rúcula com tomate e aquela maldita polenta que ela detestava.

O cardápio do dia tinha que segui-lo à risca, pois a primeira coisa que o patrão verificava era se tudo ia do jeito que estava na agenda e ai dela se fugisse a algum detalhe.

Olhava a agenda, lia e relia. Não entendia uma tarefa determinada. Telefonou para a filha e pronunciou cada letra. A filha não entendeu nadica de nada!

Ufa! Não podia de jeito nenhum deixar de cumprir as ordens!

O patrão, carrancudo, chegou para o almoço.

Pegou a agenda, mas quem disse que tinha coragem para fazer alguma pergunta a ele? Ia da sala para a cozinha, da cozinha para a sala, até que ouviu um resmungo.

Abandonou a ideia e foi correndo atender as exigências do patrão. Só reclamação: o arroz estava assim, o feijão estava assado, a rúcula dura, o suco horrível.

Correu para fazer um suco de maracujá, usou quase uma garrafa. Viche! E se ele dormisse? Melhor, assim se calava!

As travessas iam se esvaziando. Imaginava como seria se tudo estivesse como ele desejava.

Por mais que caprichasse, não conseguia agradá-lo. Viche! Tinha que arranjar outro emprego; era exigência demais!

Nervosa, ia queimando as tarefas do dia e somente aquela que não tinha entendido ficara para o final.

Sentou-se, pegou a agenda, começou a analisar. Não adiantava ligar para o celular da patroa, que ela nunca atendia, tinha horror a celular e o deixava dentro da bolsa, bem longe.

Descascar, fatiar o abacaxi e...

Estava num impasse, até que uma luz acendeu em seu cérebro. Havia entendido a mensagem.

Correu para a cozinha e foi fazer o doce. Achou estranho, mesmo porque a patroa não comia doces para não engordar, mas quem sabe receberia alguma visita?

Viche, que dia complicado!

O carteiro chegou na hora em que colocava o açúcar no fogo. Foi correndo atendê-lo.

Quando chegou, o açúcar havia se transformado num caramelo, igualzinho ao que ela queria. Ainda bem que alguma coisa tinha dado certinho! E, ao som de Reginaldo Rossi, ia cantarolando, terminando suas tarefas na casa da patroa, já pensando na segunda jornada de sua própria casa.

A patroa não resistiu ao ver as fatias de abacaxi carameladas e caiu dentro!

Com remorso pelo crime cometido, nem dormiu direito. Deveria ter engordado uns dois quilos!

– Dalci, por que você fez doce de abacaxi?

–Viche patroa, foi difícil de entender! Não era o que a senhora tinha pedido?

–Dalci, descascar o abacaxi e fatiá-lo. Please.

–Não era para assar? Olha só: please, para assar!

Margot Carvalho