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O equívoco

Com a gentileza de sempre, impecável em sua postura de cavalheiro, Ricardo abriu a porta para que as moças pudessem descer mais próximo do teatro. Ao longe, avistou uma vaga para estacionar.

Sua namorada olhou-o bem nos olhos, com raiva e reprovação. A moça, sempre bem-humorada, de bem com a vida, dócil e sorridente, mudara sua maneira gentil de agir.

Não entendeu porque e com pressa prosseguiu para estacionar.

O percurso fora bastante confuso. Num sinal ermo, tivera de fugir de assaltantes, o que não aconteceu ao casal que vinha atrás. Viu pelo retrovisor o casal sendo assaltado.

Avisou imediatamente à polícia, que encontrara logo após.

O pneu traseiro, lado esquerdo, furou e, na escuridão da noite, as moças, a quem ele devia completa segurança, queriam voltar, mas para ele seguir em frente era questão de honra.

Assistiriam à peça e depois jantariam num restaurante chique. A mais bela das moças era sua namorada e ele a queria impressionar. A bela mulher de olhos azuis, cabelos encaracolados que desciam pelos ombros, chegando ao comprimento certo, emoldurava a paisagem, com a pele delicada numa cascata reluzente entre o azul e o dourado dos seus cabelos. Irresistível e frenético visual na leveza do sorriso pela boca carnuda e sensual.

Um mal-educado estacionou no lugar que iria ocupar. Tentou argumentar, mas... As moças o esperavam na porta do teatro. Não entendeu sua bela de olhos azuis que o fuzilava com o olhar. Tentou aproximar-se, mas ela esquivou-se. Sempre tão amorosa com ele! O que estaria acontecendo? Deveria estar no seu período TPM.

Terminada a peça, por sinal muito cômica, Ricardo não parava de rir e estranhava a namorada sisuda que, no normal, ria até de desastre. Assistiu à peça de braços cruzados, cara fechada e nem um sorrisinho.

Que diferença de quando o viu chegar! Pulou em seu pescoço, cobriu-o de beijos...

Levou-as ao restaurante chique com música ao vivo e, doido para extravasar o dia estressado, puxou-a para a pista, queria dançar. Ela o empurrou violentamente. Tinha a ligeira impressão que a vontade dela seria agarrar-lhe o pescoço e, com as mãos, ...

Suas convidadas rodopiavam pelo salão, alegremente. Depois de tantos transtornos, necessitava de carinho e atenção. Beber? Proibido. Poderia pôr em risco sua carteira de motorista.

Tão carinhosa para com ele, não entendia sua reação. Estaria com ciúme das amigas? O dia lhe fora penoso. Diante de tantos processos, as letras ainda lhe dançavam nos olhos, e nem era sexta-feira feira 13! Apenas dia 13 e ele nem tinha superstição!

Deu graças quando quiseram ir embora.

O motorista lhe trouxe o carro e aí sua namorada explodiu:

– Ricardo, tá certo que você tenha certa intimidade com minhas amigas, mas dizer que nós descêssemos do carro porque ia cagar, isso já é demais!

O rapaz olhou para a moça e não entendeu nada. Ele só pediu que descessem porque ele ia estacionar.

Margot Carvalho