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O ALMOÇO DE DOMINGO

 

Era tradição da família Dantas, no almoço de domingo, comer aquele franguinho bem sequinho, sem gordura, feito na “televisão de cachorro”, que é uma delícia!

Dia de FLA X FLU. Seu Manuel, atarefado na preparação do churrasco, pediu a D. Maria que fosse comprá-lo.

Exigente e já acostumado com o tempero, pediu que o frango fosse comprado na lanchonete de D. Mafalda.

D. Maria, juntamente com sua filha, observavam tudo. Alguém, num piscar de olhos se instalou na frente das duas que se entreolharam com furor.

-Ei! Tá pensado o quê? Só porque está com essa loura oxigenada vai furar a fila? A confusão se formou.

Indignados com a audácia do casal, em coro todos gritavam:

- Querem levar uns petelecos na orelha? Sai fora, sai fora...

O guarda enfim punha ordem. Colocava o casal no seu devido lugar, no final da fila. O clima ia esquentando, mesmo porque todos estavam com pressa, queriam almoçar para assistirem ao jogo.

Impacientes tentavam apressar os rapazes que preparavam os frangos.

-Impossível! - diziam eles. Vocês gostam deles bem sequinhos e assadinhos!

Ao olhar para trás, D. Maria se assustou. Uma fila quilométrica havia se formado.

-Só seu pai mesmo, minha filha, só ele mesmo! Há tanto frango por aí, mas ele quer esse daqui, só seu pai mesmo e não parava de reclamar.

Lá na frente, o sorriso largo e satisfeito de quem já o havia comprado.

D. Maria sequer perdia um movimento. Ao longe se detinha nas observações.

Os frangos eram cortados em quatro partes, mas com tanta gente, via-se que trocavam os pedaços ao embalá-los.

Atenta, jamais permitiria ser passada para trás. Queria o frango que ela escolhesse e seus quatro pedaços iguais. Detestava ser enganada! Via ao longe, os mais espertos tirarem vantagem, mas pra cima dela não!

Ufa, chegara sua vez. As duas já haviam determinado o que queriam. Era o maior de todos. O frango foi cortado nos quatro pedaços, mas na hora de recolherem para embalar, as partes pertenciam a outro frango.

Não prestou. D. Maria e a filha criaram a maior confusão.

- Você colocou o meu pedaço no pacote daquele moço! O rapaz atrás logo se pronunciou.

- É “mermo”, por isso que meu frangote nunca dá pra nada! “Ocês num sabem trabaiá”! E confusão, novamente...

A funcionária defendia sua patroa, firmemente.

D. Maria enfurecida com os fatos, principalmente porque a funcionária não lhe dava apoio, resmungava:

- O freguês tá sempre certo, menina! Onde já se viu não apoiá-lo! O Manuel não compra mais aqui. Vocês vão perder o freguês.

A funcionária defendia mesmo a patroa. O melhor frango era o dali, não havia troca... e continuava sem parar.

Pago o frango as duas saíam da loja deixando a confusão, formada por elas, para trás.

Ao virar-se, a filha de D. Maria, viu a funcionária fazendo língua pelas costas das duas.

Revoltadas voltaram e nova confusão foi formada. Os fregueses irritados, avançaram sobre a “ televisão de cachorro” e se serviram como puderam. Em menos de dez minutos, depenaram todos os frangos.

As duas, radiantes, deixavam o local, cheias de razão!

Margot Carvalho