Trajetória :: Livros :: Galerias :: Fotos :: Poemas :: Crônicas :: Pensamentos :: Links :: Contato

 

O Fantasma


Há algum tempo atrás, a rapaziada de Santa Cruz, não tinha muita chance de diversão. Portanto, os rapazes se reuniam e iam a pé até Itaguaí.
A algazarra, sempre nos finais de semana, era certa.
A elite de Santa Cruz se reunia em grupos e lá iam eles se divertirem. Estudantes de medicina, engenharia, direito... Caminhavam pela única estrada que os levaria ao destino e nessa estrada havia uma ponte, passagem de trem, por cima do Rio São Francisco.
Alguns levavam lanternas para seguirem o caminho.
Iam contando piadas e risadas sem fim ecoavam num só eco. Era mato por todo lado, mas o fato não desanimava os corajosos rapazes. Queriam diversão, conhecer garotas... Farrear pra valer! Enfim, mereciam, pois ralavam pra caramba a semana inteira, indo para o centro da cidade, estudar. E olha que na época, o ensino era pra valer!
Num sábado, após farrearem bastante, vinham a contar piadas e com muita zoação.
As lanternas, quase todas com as pilhas gastas, estavam enfraquecidas, mas como já estavam de volta e em noite de lua cheia, a lua ia clara e resplandecente.
Ao chegarem perto da ponte, encontraram um senhor com o olhar cabisbaixo e o semblante triste. Estranho, àquela hora ver alguém por ali, mesmo porque era lugar ermo e pouco frequentado.
Os bons rapazes se apiedaram do homem e tentavam ajudá-lo fazendo-o sorrir com piadas. Não é que o conseguiram!
O homem abriu um enorme sorriso de onde saíram labaredas enormes de fogo.
Saíram em disparada, tropeçando na ponte e um deles escorregou, caindo no rio. Apavorados, tentavam salvá-lo.
Desmaiado, pensaram que estivesse morto. O que diriam à família?
O estudante de medicina com seus métodos, ressuscitou o amigo. Que alívio!
Ensopados e tremendo de medo, seguiam o destino se abraçando e se amparando uns nos outros.
Avistaram um senhor elegantemente vestido que ia à frente. Muito nervosos, começaram a contar o acontecido enquanto o senhor os escutava, calma e atentamente. Após o relato o estranho lhes dirigiu a palavra:
- Olhem meninos, por que tanto medo? Isso não é nada! Vocês se apavoraram à toa. Fantasmas não andam por aí apavorando rapazes como vocês. Eu duvido que o que viram fosse um verdadeiro fantasma.
- Como não é nada senhor? Estamos apavorados, nunca vimos coisa igual! Aquele homem era um fantasma!
- Fantasma nada, meninos. Quem disse? Devia ser uma alma penada vagando por aí. Mandem rezar uma missa, elas gostam. Fantasma de verdade é bem diferente! Tem muito poder e vocês ficariam apavorados de verdade. Perderiam até a voz e jamais estariam aqui conversando comigo. Na verdade, vocês nem imaginam como seja um fantasma!
- Por que o senhor fala desse jeito? Por acaso conhece algum?
- Certamente, certamente, conheço sim! Verão realmente um fantasma de verdade!
- O que senhor quer? Apavorar-nos ainda mais?
- Qual nada, minha intenção não é essa! O fogo que vocês viram era poderoso como esse aqui?
O homem abriu seu enorme sorriso espalhando labaredas por todos os lados.
Labaredas se ampliavam e iluminavam todo o lugar, numa dimensão sem fim.
Petrificados não conseguiam se mover. Gargalhadas ecoavam num eco indescritível!
Muito mais apavorados que antes, saíram em disparada e só pararam de correr quando chegaram a casa.
O fato correu de boca em boca por Santa Cruz inteira. E o comentário de que o amigo havia beijado na boca o outro amigo, levantou a suspeita sobre a sexualidade do rapaz. Quanta ignorância!
Alguns duvidaram da história: “Beberam demais.” “Tudo imaginação.” Riam do fato, chamando-os de mentirosos.
Depois de tudo o que passaram ainda não acreditavam neles! Isso pode?
Margot Carvalho