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É logo ali, uai!

Os dois jovens universitários viajavam até Minas, local da festa, para a qual Breno fora convidado.

Pelo telefone não conseguiam falar com o amigo, anfitrião da festa, para saber como chegariam ao local.

Estavam tão cansados! Viajaram toda noite e não viam a hora de descansar.

O povo mineiro gosta de agradar e receber as pessoas.

Logo que chegaram à cidade, foram recebidos com cafezinho, pão de queijo, bolo de fubá, queijinho fresco, doce de leite etc.

Quase todos estavam convidados para a festança e Breno não pudera dizer não ao seu melhor amigo. A namorada reclamava de exaustão, enfim, o cansaço dos dois era imenso.

“É logo ali, uai. O senhor segue aquela estrada, entra à direita, anda até o armazém do seu Zé, tem uma pracinha, uma igreja, segue em frente, depois atravessa um rio, anda mais à frente, dobra à direita, segue mais um pouco e...”

Os dois jovens seguiam e seguiam, pediam informações e novamente: “É logo ali, uai. O senhor segue em frente...”

O celular do amigo não atendia e eles não tinham outra opção a não ser pedir informações. “É logo ali, uai...” E nunca chegava!

Mais e mais andavam.

–Vamos desistir, voltar à cidade, tomar um banho, descansar, depois voltamos.

– Você está brincando, minha gata?

– Não estou, não! Todo mundo nos diz que “é logo ali, uai” e nunca que chega!

“Agora que minha gata vai reclamar” pensava alto.

– Espera um instantinho, o pneu furou!

– Pega o macaco pra mim.

– O que, Breno?

– Pega o macaco.

– Macaco? Você quer que eu pegue um macaco?

– Macaco, minha gata, ferramenta para trocar o pneu!

– Ah, bem, pensei que fosse um desses macacos que encontramos pelo caminho!

– Não. É uma ferramenta. Pega ali no porta-mala.

– Breno, nunca troquei um pneu! Venha me mostrar o que é que você chama de macaco. Não sabia que no carro tem macaco para consertar pneu!

– Fica zangada não, minha gata. Vai valer a pena!

Todo sujo de graxa e com os pés enlameados, meio sem jeito, Breno trocava o pneu, enquanto a namorada, sentada numa pedra, esperava, muito contrariada.

Trocado o pneu, lá vinha uma carroça se aproximando e mais uma oportunidade de obter informações. Graças a Deus!

O carroceiro começou: “É logo ali, uai. O senhor vai encontrar uma fazenda que vende queijo, doce de leite, goiabada, água de coco, cocada, pé-de-moleque, linguiça de porco, rapadura, geléia, aguardente de todos os sabores, licor de amora...”

E pôs-se a citar coisas, até que Breno interferiu para que ele parasse.

“O senhor segue em frente, aí tem uma igrejinha de Nossa Senhora e uma pracinha, mas o senhor pode seguir, dobrar à esquerda, ir em frente. Vai encontrar um moinho, um campo cheio de cabras. Tem também queijo de cabra pra vender, se o senhor quiser comprar, eles vendem e é muito do gostoso, principalmente se o senhor comer com a goiabada que vai comprar na fazenda...” E não parava, o homem falava, falava, falava... Até que um grito histérico o fez calar-se.

Breno, agora, tinha vontade de desistir! Era tanto “É logo ali, uai.” que ele não aguentava mais.

Fez nova tentativa para o amigo, que desta vez atendeu ao telefone:

– Olha, você está bem perto, devem faltar uns três quilômetros.

– Segue em frente, dobra à esquerda, passa a ponte de madeira, segue mais um pouco e você vai ver minha fazenda bem no alto da colina. Não tem errada. Estou te esperando. Que bom que você veio, amigo!

– Três quilômetros é chão pra caraca, Breno!–protestou a namorada.

– Não é, não! Vê bem a distância entre estes postes! Deve ser mais ou menos de cinquenta metros.

– O que deu em você? Tá maluco, Breno? Impossível, impossível! Eu levo para a faculdade, todos os dias, minha régua de cinquenta metros dentro da mochila!

Breno olhava, incrédulo, para a namorada! Coitada, devia estar mesmo muito cansada, pobrezinha!

Margot Carvalho