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DESLIGADA


Sua carreira ia de vento em poupa! Promovida, transferida para São Paulo com apartamento pago. Iria direto do aeroporto para a empresa, levaria as malas e no fim do dia, aí sim, se instalaria no apartamento.

Quanta responsabilidade presidir uma reunião em seu primeiro dia de trabalho!

Elogiaram-na por seu desenvolvimento. Tudo dera certo! Sequer notaram seu nervosismo.

Sempre sorridente conquistara a todos. Estava exausta! Viajara à noite e trabalhara o dia inteiro, sem parar.

A chuva caía. A água vinha-lhe até os joelhos. Ufa, que dia! Como era difícil estar numa cidade grande, cheia de gente e carros transitando e ainda enfrentando uma tempestade daquelas!

Com o número do apartamento nas mãos, dirigiu-se ao décimo andar.

Abre a porta e entra. Estira-se no sofá. Está tão cansada!

Ensopada e enlameada, tenta recuperar-se para um banho. De repente a sua frente, aparece um rapaz nu a lhe olhar interrogativo. Seria uma miragem?

Gaguejava... As palavras não saíam tamanha a surpresa. Um homem nu, a sua frente, como entender?

- Como conseguiu entrar aqui, menina? Está sujando o meu sofá!

- Só atendemos com hora marcada!

Respirou fundo, recuperando-se da surpresa e conseguiu falar:

- O quê? Hora marcada pra quê? Este apartamento é meu!

E de repente um outro aparece não se sabe de onde e lhe diz:

-Só fazemos programa com hora marcada, o apartamento é nosso. Não me lembro de ter dado a chave a alguém, se quer nossos serviços teria que nos telefonar.

Dois homens pelados e enfurecidos lhe pediam explicações!

- Como você entrou aqui?

- Com a chave. Esse apartamento é meu!

- Você está brincando, moramos aqui há cinco anos.

Quanta humilhação depois de um dia exaustivo de trabalho!

- Impossível, diz a moça aos prantos. Esse apartamento está reservado para mim. Contou toda a história:

- Fui promovida e transferida do Rio de janeiro para cá e...

O que pensavam? Soluçava sem parar. O que iria fazer, àquela hora numa cidade que não conhecia?

- Se quiser passar a noite aqui pode passar. Não lhe vamos fazer nada. Pode ficar sossegada mesmo porque, cobramos por nossos serviços.

- Cadê o endereço, deve haver algum engano?

Procura ali, acolá e nada!

Joga no chão tudo o que há dentro da bolsa: papéis, maquiagem, absorvente, etc. Todos à procura do endereço, parecia ter evaporado!

-E agora o que faço?

Joga-se no sofá. Sua mão pousa num papel amassado e molhado.

-O endereço!- grita feliz.

Realmente, Paula havia entrado no prédio errado. Seu apartamento ficava no outro quarteirão.

Tudo certo! Os rapazes ajudaram-na a carregar a bagagem e ela, agora, tranquila e instalada em seu apartamento, sorria embaixo do chuveiro. Parecia mais uma bruxa enlameada.

Precisava se ligar mais nas coisas. Seus enganos aconteciam frequentemente.

Margot Carvalho