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Chega de viagem

Chega de viagem, abre seu e-mail, leva um choque! Enterro de Joaninha, às 15 horas.

Meu Deus! Sua amiga morrera!

Cai em choro convulsivo. Coitada da Joaninha!

Pega o carro, ainda há tempo.

Um engarrafamento gigantesco...

Imagina a amiga, dentro de um caixão escuro e feio, asfixiada, fechada, sem poder se mover. Sente arrepios em todo o corpo.

Será que a maquiaram? Não se perdoaria, fora pedido da amiga. Pensa em chamar seu maquiador. Olha para o relógio, não dá mais tempo!

E agora? Tem horror a defunto! Como ir ao enterro?

Quer estacionar, não há lugar.

Deixa o carro a uns quinhentos metros de distância. Sai em disparada.

Respira fundo e, com coragem, cabeça erguida, entra no cemitério. Calafrios percorrem seu corpo. O medo é tanto! Lembra-se de histórias de terror. Sente que alguém a está acompanhando. Olha para os lados e nada.

Esgueira-se, não querendo aparentar medo, vai em frente...

Olha numa sala, nenhum rosto conhecido. Olha noutra, também não. Chegara atrasada?

No relógio, quinze horas e três minutos.

Trêmula, procura a administração. Alguém informa que naquele dia não entrara ali nenhum defunto com aquele nome.

Não era possível!

Lembra-se do Jardim da Saudade. O corpo de Joaninha está lá!

Entra no carro e sai em disparada. O mesmo problema: lugar para estacionar...

O relógio marca quinze e trinta.

Alguém sai e ela ocupa a vaga.

A chuva cai, o vento forte parece querer levá-la, juntamente com seu chapéu, que se dobra, irritando-a. Tenta dar um jeito. Que nada! O guarda-chuva parece levantar voo! Joga-o bem longe e ele vai contra um carro que passa. Receosa de ter machucado alguém, quer ajudar, mas lembra-se da hora. Não dá tempo...

A culpa e o medo a acompanham. Olha o local e entra na primeira capela. Não conhece ninguém.

Entra em outra. Um homem, aos berros, clama por Joaninha. Nervosa, tenta confortá-lo, não consegue. O desespero toma conta dela. Cai também em prantos.

Procura um banheiro e, de repente, entra alguém e lhe diz:

– Moça, esse banheiro é masculino!

Envergonhada, sai de mansinho.

Percorre com os olhos o local. Nenhum rosto conhecido! Esquisito!

Fica quieta, com medo de olhar para dentro do caixão e ver sua amiga pálida, sem o viço da vida. Coitada!

Uma mulher de meia idade, desconsolada, debruça-se sobre o caixão. Pensa: “Coitada! Perdeu a filha.”

Alguém carrega a mulher para o canto da sala.

Aproxima-se dela, para consolá-la. Choram juntas.

O tempo passa e ela não se atreve a ir até o caixão.

A sineta anuncia a hora de levar o caixão. Tem que dar só uma olhadinha! Cadê a coragem?

Chega mais perto, fecha os olhos. Talvez o rosto esteja desfigurado! E se não estiver maquiada? Não se perdoaria. Vira as costas, acompanha o funeral.

Tudo encerrado.

No que se transformara a humanidade! Ninguém no velório! Pensa então nela e se imagina da mesma forma: sem amigos para lhe dar o último adeus.

Estaria maquiada? Será que estaria maquiada? Como fora covarde! Sequer tivera coragem para dar uma olhadinha que fosse, só uma olhadinha.

Chegou de viagem e logo o conhecimento da morte de uma das melhores amigas! Nem acreditava que Joaninha estivesse morta.

O portão nega-se a abrir. Está muitíssimo estressada. Deixa o carro do lado de fora. Sobe as escadas, entra em seu quarto, abre o chuveiro. Água bem quentinha, sabonete perfumado e... acaba a água.

Irritadíssima, com uma garrafa de água mineral termina o banho. Toma um comprimido, precisa relaxar. Dorme profundamente.

A campainha do despertador soa, insistente. Dá um salto da cama.

O dia ensolarado entra pela janela. Escova os dentes, espreguiça-se, desce para o café. Lembra-se da amiga e não se conforma...

Pergunta à Maria o que realmente acontecera à Joaninha. Obtém como resposta: nada.

Como nada? No dia anterior fora ao seu enterro!

Impossível, impossível duas desgraças em tão pouco tempo! Joaninha, filha de D. Joaninha, tão jovem também morrera?

A empregada treme dos pés à cabeça.

Gostava demais da amiga da patroa. Como pôde acontecer?

As informações parecem não bater.

Maria, atordoada, pergunta à patroa de que maneira soube da morte de sua amiga, já que ela, Maria, recebera a notícia de que D. Joaninha tinha morrido há dez dias.

Corre ao quarto, abre o e-mail e aí então pode ver:

“Com muito pesar, D. Joaninha será enterrada às 15 horas. Data – dia 12.”

Margot Carvalho