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As férias

Gosto de sempre trazer para meus leitores textos descontraídos, jocosos, mesmo porque a vida nos massacra, todos os dias, com notícias ruins. Com isso procuro sempre o relaxamento mental.

A criançada e ele também veriam pela primeira vez o mar.

Trabalhara muito e tinha pouca instrução.

Descendente de italianos, misturava o português com o italiano de forma peculiar. A esposa, com cultura bem superior, depois de casada, deixara a cidade grande indo morar no interior, o que lhe custara muito a se acostumar. O contato com a natureza a extasiava, mas com o tempo, sentia falta da vida barulhenta, presa a horários, compromissos.

O silêncio constante quase a enlouquecia. Pouco se fazia naquela pequena cidade. Ia-se acostumando, já que não havia outra solução. Ficava atenta a tudo o que acontecia. Comprava jornais, revistas que circulavam pelo país, TV a cabo, enfim, necessitava de informações, senão enlouqueceria.

Abrira mão de sua profissão, engenheira, em função do amor, porém era um preço muito alto.

Se ficasse na grande cidade, se arrependeria, não teria filhos e um marido que lhe fazia todas as vontades. Fora uma decisão própria, sem nenhuma pressão.

Enfim, depois de tanto tempo, tiravam férias, sem previsão de retorno. Destino: Rio de Janeiro.

Fascinados, olhavam o mar pela primeira vez! Os pequeninos não queriam outra coisa senão ficar naquela banheira que se perdia de vista, onde não se via o início e nem o fim.

A primeira etapa do programa fora cumprida. O guia os levaria para conhecer os lugares de real beleza.

A família fora visitar o Pão de Açúcar. As crianças queriam comer o pão de açúcar, procuravam e não entendiam. Onde estaria o pão? Gargalhadas ecoavam!

O guia não conseguia acreditar: o pai queria a mesma coisa. Não era possível tanta ignorância!

A esposa, envergonhada, explicava que era somente o nome do lugar.

Foram ao Cristo Redentor, uma das sete maravilhas do mundo moderno. Gostaram, mas acreditavam que seria mais emocionante.

Ah! O mar, a espuma borbulhante!

Queriam mudar o rumo, ficar no hotel cinco estrelas em frente ao mar, e banho o dia todo. Impossível, o roteiro tinha que ser cumprido!

Rumo à cidade serrana.

O Museu Imperial, em sua estrutura antiga, preservada e impecável, não produziu nenhum impacto. Teriam que calçar chinelos para ver a coroa do imperador, as jóias das rainhas e princesas, os talheres de prata, as porcelanas, etc. Pra que tudo isso? Os talheres de sua casa também eram de prata e tudo do mais caro que existia no mercado, pois sua mulher tinha bom gosto. Não havia nenhuma graça. Sem falar em enfrentar uma fila imensa. O Palácio de Cristal? Tão sem graça! Nem quiseram saltar para visitá-lo, enquanto o guia falava e falava. Eles não se interessaram mesmo.

O rapaz, perplexo, não sabia agir com pessoas que apresentavam valores tão esquisitos, mas teria que ir até o fim, fora bem pago para isso. Ia pensando: “Que gente bizarra!”

Depois de tanta reclamação pelo passeio tão sem graça, o guia achou interessante que fossem visitar a casa de Santos Dumont.

Lá iam eles resmungando, enquanto o guia tentava motivá-los com a criação do grande Santos Dumont.
Quem visitava a casa via a criatividade perfeita de seu construtor.

E um fato inesperado aconteceu: o marido vira-se para o guia e fala, em voz alta:

– Vai ver que depois de tanto cansaço, esse tal de Santos Dumont não vai estar em casa!

A mulher, estarrecida, olhava para o guia, que não acreditava no que ouvia.

Margot Carvalho